30 novembro 2009
a gente nunca pensa que pode ser conosco - (relato)
Naquele fim de tarde estava lá, ajudando Maria na sua pequena horta, enfiando meus dedos enegrecidos no solo de esterco de galinha muito bem preparado para transplantar aquelas mudas de alface exatamente na lua crescente. Fiquei por alguns minutos totalmente absorta não na atividade, mas, no meu Self. O que eu queria mesmo era cavar para encontrar a mulher de 2 milhões de anos, a minha ancestralidade, os meus ossos, a parte mais resistente de mim.
Depois, corri com Valentina (sua filha de 02 anos), rimos e brincamos no fim de tarde nas margens do Río Baker. Somente voltei para a minha dor novamente quando entramos na casa para tomar "las onze" (uma espécie de lanche antes do jantar). Quando sentei perto do fogão de lenha, meus olhos voltaram-se para baixo e meu corpo se apropriou de novo da dor de minha perna, os pés vermelhos, inchados, a coçeira. Para evitar mais uma noite sem dormir, Maria me ofereceu uma pomada natural de arruda para meus pés. Funcionou muito bem.
Na manhã seguida, acordamos cedinho e fizemos contato via rádio com o coordenador de logística da NOLS para certificarmos de nosso encontro ao meio-dia na Carretera, na casa de Don Crístian y Dona Rosa Arratia. Tudo certo, entramos no bote e começei mais uma parte da viagem, despedindo visualmente daquelas belíssimas montanhas remotas da região de Aysen, entre os Campos de Gelo Norte e Sul da Patagônia Chilena. Quando chegasse na casa do casal, ainda esperaria o carro da NOLS e teria mais uma viagem de carro até Cochrane, finalizando a minha operação de evacuação de campo. Tudo começara três dias antes assim:
Naquela sexta-feira 13, nós, instrutores , nos reunimos e decidimos passar as informações (via telefone satélite) para o escritório da Escola e para WMI (Wilderness Medicine Institute), pois não tínhamos mais "controle" sobre o meu quadro de saúde. Já havia 10 dias que tinha sido picada por uma provável "aranha", e não víamos nenhum retrocesso da inflamação com os antibióticos, ao contrário, a aparência da lesão e a evolução dos sinais e sintomas só nos deixava assustados dia após dia. Tudo indicava que estava com uma severa picada de aranha e como a lesão já apresentava ulceração, provavelmente estava também com uma infecção (o que explicava outros sintomas de debilidade no meu organismo). Foi pensado uma logística para que eu saísse dali o mais rápido possível e definido no mesmo dia. Como podia andar, mesmo sem a mesma eficiência e energia de antes, o plano incluía:
sair com uma equipe (02 instrutores + 02 alunos) até a junção do Río Solo (uns 4 km de vara-mato) e lá encontrar o Bernardo Arratia ( que, junto com seu irmão, Lautauro, tinha levado à cavalo todo o nosso suprimento de comida para o resto do mês-300k - dias antes até aquele ponto);
viajar de cavalo com Bernardo pela cordilheira por 02 dias até chegar a sua casa, nas margens do Río Baker;
viajar de bote no Río Baker com Lautauro até a carretera
Ir para casa dos pais de Lautauro e Bernardo (Don Cristian e Dona Rosa) na carretera e esperar o carro da NOLS
Viajar de carro até Cochrane e receber o atendimento médico inicial.
Viajar até Coyhaique (de ônibus) e chegar na NOLS e ir à um atendimento mais específico, dermatologista.
Betsy tinha feito um mingau de aveia maravilhoso aquela manhã, dei umas colheradas e fechei meu tapperware para comer mais tarde. Trevor e Clark (alunos) estavam super dispostos, sensíveis e cheios de paciência comigo, mas a minha já tinha sumido há alguns dias.
Acho que este foi o dia em que mais irritada estava, extremamente impaciente, intolerante e fraca. Minha mente, meu corpo. Eu era só fragilidade, mas não me permitia ser, afinal, sabia que tinha um longo percurso pela frente. A gente só estava começando, e eu só sentia a dor, o peso da mochila apoiando no meu quadril, era o suficiente para pressionar minha perna, tinha que me preocupar em afastar os galhos que passava para não tocar na coxa (picada), passar por cima dos milhões de troncos caídos era um tormento. Ali eu me dei conta o quanto estava debilitada.
Os últimos dias tinham sido muito duros de encarar segurando tanta dor, preocupação e tensão. Tínhamos feito porteios dois dias seguidos com muito peso e neste terreno (floresta fechada cheio de calafates – espinhos- e troncos para passar por cima ou por baixo), estava chovendo há dias, ou seja, ficava o dia inteiro molhada, usando a energia de meu corpo para secar a roupa e só à noite tinha horas de repouso, no entanto já estava sem dormir há dois dias por conta das dores, hipersensibilidade alérgica e coçeira. Tive energia para fazer tudo isso, mas tomava remédio para dor para poder estar de pé.
Não sei se fui longe demais, mas certamente isto custou a minha melhora, estava com uma infecção, com as consequências de uma picada de aranha evoluindo, mas agia como se no dia seguinte tudo ia melhorar. Naquele último hiking, eu definitivamente olhei para o meu medo, ele era enorme, na verdade ele era gigante; e apesar de triste por sair do curso na metade, eu queria muito sair dali, queria ver um médico, queria minha saúde de volta.
Quando paramos para lanchar e estava saboreando o delicioso mingau com castanhas, fomos surpreendidos por Bernardo. Ele tinha chegado 3 horas e 2 kilômetros antes do horário e local combinados. Ficamos todos boquiabertos com a eficiência dele. Redefinimos o plano e dali eu seguiria com ele pela floresta, e os outros poderiam dar meia-volta dali para o acampamento. Esta parte foi frenética, fiquei muito cansada, levava quedas ridículas, com meu piolet enganchando nos galhos, desequilibrando nos troncos altos. Bernardo Arratia, 36 anos, nascido e criado nas cordilheiras da patagônia chilena, tem uma habilidade, eficiência e atitude diante de um off-trail impressionantes. Eu não acreditava que o cara tinha passado segundos antes de mim, pelo menos lugar com tamanha agilidade. Era a primeira vez que ele passava ali naquele trecho, falou que achou o “caminho”, pelo rastro que tínhamos deixado (dias antes passamos com o grupo por lá e demoramos 5 horas). Demoramos uma hora até chegarmos à junção onde encontramos 02 cavalos.
Estava chovendo muito, rapidamente ele recolocou as selas dos cavalos, dividimos o peso de minha mochila entre eles e sem se prolongar muito, me ajudou a subir no cavalo e me orientou o que fazer caso o cavalo baixasse a cabeça – querendo cair- ainda disse para manter uma mão na rédea e outra na pele de ovelha a qual estava sentada para me segurar. Eu não me lembro se naquela hora alguma palavra saiu de minha boca ou só respondi balançando a cabeça. Eu escutei, mas estava prestando atenção mesmo na correnteza e volume do rio. Nem de longe parecia o mesmo rio que tínhamos cruzado andando 5 dias antes, mas como chovera muitos dias seguidos (segundo Bernardo, “chuva quente é só água!”, ou seja a temperatura não abaixou nos dias de chuva, não houve neve ou congelamento) e por estarmos ainda alto na cordilheira, o rio tem característica mais estreita, isto implica maior fluxo com mais rapidez.
Era o primeiro cruze dos 15 que fizemos nos 02 dias. Mas, certamente foi o mais desafiador e perigoso. Por isto a pressa de Bernardo em sair dali logo, foi muito difícil ele chegar ali e ainda mais voltar com uma outra pessoa em total segurança. Como ele mesmo falou: “ pelo menos você fala espanhol”. É verdade, falava em espanhol, mas, nunca na minha vida tinha cruzado um rio daqueles à cavalo. Não tem outra palavra para definir senão: assustador. As pedras enormes dentro do rio, completamente cobertas de água; montada no cavalo, a água chegava na altura de minha canela; o cavalo cruzava numa linha diagonal, porque era empurrado rio abaixo pela água, pisava no chão, mas não era chão era a borda de uma rocha que escorregava e então ele desequilibrava, baixava a cabeça subitamente e eu puxava as rédeas rapidamente. Eu pensei muita coisa nessa hora: fiquei concentrada no que estava acontecendo, tentava me comunicar telepaticamente com o cavalo e, já tinha feito uma leitura do rio , caso caísse sabia para onde ia nadar e, muito eficiente, pois a água era congelante.
Foi assim: ininterrupto e tenso por quase duas horas. Os cachorros de Bernardo: Chicote, Revenque e Portenha nos acompanhavam, e os rios para eles eram obstáculos do cotidiano, possivelmente banais, com exceção de Chicote, que apesar de parecer o mais forte, chorava por minutos antes de entrar no rio largo e gelado. Foi tudo meio perturbador no começo do primeiro dia, tudo ali estava dolorido, quando estava em cima do cavalo (significava que estávamos cruzando rios) tinha vontade de descer, tamanha a insegurança; quando estava fora do cavalo (significava que estávamos subindo um terreno muito inclinado ou mato fechado ou puxando o cavalo em trechos com muita lama) também queria descer.
Duas horas depois encontramos o outro cavalo que Bernardo tinha levado como apoio, colocamos toda a carga neste terceiro cavalo e seguimos mais um pouco até encontrar a barraca que ele tinha dormido na noite anterior e que saíra às 05:00h para ir me encontrar. Ainda chovendo muito, descemos dos cavalos, me alonguei um pouco e ele começou a ferver a água para o mate. Foi um momento realmente muito bom. Creio que bebemos mais de um litro de mate! Com toda a riqueza de suas propriedades e com seu caráter energético, o mate não foi tudo o que precisava, mas me fez muito feliz. Respirar, compartilhar, sorrir. Apesar de todas as dificuldades, aquela experiência estava sendo de um valor único, e por um lado, mesmo que não muito aparente, eu estava gostando também muito de tudo.
Foi este movimento paradoxal que permaneceu por todo o dia. Situações como o cavalo atolar a pata inteira entre as raízes, cair e eu não sair por não conseguir tirar meu pé do estribo (por causa das botas duplas), me fez não usar mais os estribos (pois o risco evidentemente era maior), para compensar a segurança fazia um esforço de equilíbrio enorme para não cair ou não ter a cabeça “decepada” ou um olho furado (dentro da floresta). Era surreal a quantidade de obstáculos dentro da floresta em cima de um cavalo. Se eu lembrava da picada de aranha? Era a última coisa que iria passar na minha cabeça.
Sentia-me visceralmente envolvida com aquela situação. Tinha muita magia e magnitude ao redor, impossível não absorver aquilo. Aos poucos a chuva foi parando, estava aquele vento frio, tínhamos acabado de cruzar um rio; e eu estava lá, troteando na margem do rio, sendo levada e me conectando com a tranquilidade daquele lugar, com a pele de ovelha apoiando todo o meu cansaço, quando, inesperadamente, uma raposa linda surge e, muito calma atravessa nos olhando, desfilando metros à frente do cavalo de Bernardo, que ia na frente. Foi um presente incrível, mas que só durou os segundos suficientes para ela perceber a presença dos cachorros e vice-versa. Começaram então uma correria dentro da floresta. Fiquei ouvindo aquela barulheira toda por muito tempo, cavalgamos muito até os cachorros voltarem e decidirem se entreter com outra coisa.
Quando chegamos em una casita (abandonada, mas cuidada pela família Arratia), nosso abrigo para aquela noite, o poblador, depois de tirar a sela dos cavalos, foi providenciar a lenha para o fogão. Tínhamos um fogão e comida (pois estava levando minha parte do curso de volta). Naquela noite nos alimentamos de uma sopa muito gostosa que fizemos com um pouco de carne de cordero e papas (que Bernardo levava) e pasta (que trazia comigo). Penduramos as roupas molhadas e secamos enquanto tomávamos mais mate.
Apesar de não ter dormido bem à noite, o dia seguinte estava bem mais leve, já tínhamos percorrido os terrenos mais difíceis e embora tívessemos mais cruze de grandes rios e mais montanha para subir e descer puxando o cavalo nos atoleiros, me sentia tranquila quando checava a expressão de Bernardo e só aparecia a serenidade, concentração e naturalidade. Aquele segundo dia também não foi fácil, os cavalos estavam nitidamente exautos, empacavam porque sabia que poderia atolar ou cair nas pedras; muitas vezes, nas descidas tinha que puxar o cavalo e, ao mesmo tempo correr para dar uma distância para não ser atropelada e; como eu já esperava perdi uma lente de contato. Estava demorando pra acontecer, em uma das passagens pelo mato fechado, um galho bateu no meu olho, senti dor, fechei e minha lente saltou. Eu fiquei acompanhando ela ir pulando do meu rosto, para minha capa de chuva, para o chão e então, fechei um olho para enxergar melhor o caminho.
Chegamos na casa de Bernardo Arratia à tarde, estava um tempo bom, calmo. Sentíamos um grande alívio por ter chegado e por tudo ter sido bem sucedido. Horas depois chegou Lautauro para nos ajudar a fazer as tortas (tradicionais pães fritos da Patagônia Chilena). E me fez o convite para dormir na sua casa com sua esposa Maria e sua filha Valentina.
O fim da operação se segue tal como descrevi no inicio do texto. No dia seguinte fui de bote com Lautauro para a carretera e de lá para a casa do Don Cristian e Dona Rosa. O Don Oscar, motorista da NOLS me pegou e continuamos a viagem até Cochrane.
Até chegar em Coyhaique (mais dois dias depois), eu não tinha certeza do que estava acontecendo comigo. Tinha um relato e registros (por meio de fotos) da evolução de uma picada, que provavelmente era uma aranha (já que tínhamos visto uma aranha marrom e outra preta com pernas vermelhas, dentro da nossa barraca). Mas estava muito mal fisicamente, já mancava, inchada, dores nos joelhos, sabia que já estava com uma infecção. A consulta com o médico confirmou a infecção por provável Stafilococus, em um grau alarmante; uma intervenção medicamentosa sem resultado; uma alergia generalizada por hipersensibilidade aos medicamentos e; uma parte do tecido de minha coxa com necrose, cuja sugestão do médico chileno era a de fazer uma raspagem para retirar a necrose e começar a tratar a infecção, sabe-se lá com quais medicações, já que a bactéria se mostrava resistentes à enxurrada de antibióticos, antialérgicos que tinha tomado antes.
Poderia ter feito tudo lá por Chile, mas a decisão de raspar minha pele e “deixar o corpo sangrar para curar”, me deixou bastante ansiosa. Eu sabia que meu problema já não era mais uma picada de aranha, era uma infecção que estava encaminhando para o sistema como um todo. Tinha ainda um agravante a mais, o fato de eu tomar uma dose diária de corticóide (por tratamento genético na glândula supra-renal) e a informação do médico chileno de que eu deveria parar de tomar o corticóide imediatamente. Mas, a recomendação do meu endocrinologista era a de triplicar a dose caso apresentasse um processo infeccioso. Fiquei muito confusa, tentei a ponte entre o médico do Chile e os médicos do Brasil, mas tudo corria sem sucesso. Se fizesse esta pequena cirurgia e tivesse uma complicação maior com medicação e tivesse que voltar para o Brasil, seria pior depois de uma lesão aberta, ainda por cicatrizar.
Decidi voltar, me recuperar e refazer uma série de exames que são fundamentais neste momento. Cheguei ao Brasil muito mal, em todos os aspectos que abrangem este adjetivo. Balmaceda – Santiago – Buenos Aires – São Paulo – Rio de Janeiro – Salvador – João Pessoa.
Achei que ia “surtar” de tanto cansada, realmente não entendo ainda como tive energia suficiente. Um tratamento junto de pessoas que confiamos e cercado de pessoas que amamos, é muito diferente. Isto por si só, passa a ser um elemento terapêutico.
Já em recuperação para a bactéria do Stafilococus e do tecido necrosado, escrevi para um especialista em aranhas do Instituto Vital Brazil, no Rio de Janeiro, lhe enviei minhas fotos e explicações da evolução dos sinais e sintomas, foi confirmado pelo Instituto com 98% de certeza, uma picada de aranha marrom (venenosa) muito comum naquela região do Chile.
Pela picada ter sido na parte externa da coxa, não tive sequelas graves. É interessante buscar informações, não somente à nível de identificação destas aranhas, mas, sobretudo reconhecimento do aspecto da lesão e evolução dos sinais e sintomas apresentados. Durante dias, ainda em campo, mesmo junto de pessoas muito instruídas, ficamos muito duvidosos se o que estávamos acompanhando era ou não uma lesão causada por veneno de aranha. Nenhum de nós tínhamos vivenciado de perto um quadro de picada de aranha marrom. Mantenha- se informado.
Agora é teste de paciência. Me recuperar totalmente para 2010.
Agora é hora de tecer a minha teia. É hora de criação.
26 fevereiro 2009
emanações - (poema)
esta viagem começa no olhar da criança
quero dizer, no sorriso.
na espera do esperado
negado.
esta viagem começa na descoberta do lado esquerdo
não descoberto
ainda.
na busca do benfeitor;
no sonido fastasma da Isoka*;
nos filamentos de luz
esta viagem começa na lua e no sol
na terra e no alto de qualquer expectativa
além de alternativas
somente possibilidades
esta viagem começa do zero
da consciência
nunca termina
*- Isoka: tipo de ocarina, instrumento sagrado Inca utilizado pelos antigos xamãs que viviam nos Andes.
Mita, 25 febrero de 2009 - Mendoza, Argentina.
05 fevereiro 2009
ANTÍDOTO - (poema)
Buscar
somente para o INSTINTO
não sei o que fazer
quando quero preciso ter
E se não tenho EU acumulo.
Muito do que não era
passa a ser
É o feitiço da carne
que eu como com PRAZER.
mariana candeia, são josé da serra, MG- Brasil. 30/01/09
HIPERTROFIANDO MEU MÚSCULO PRINCIPAL -Em 03 Tempos - (poema)
1. Saudade Falsa
fala e convence
de súbito, no meu ouvido
na minha mente insistente.
2. Esse Eu
no pavor descobrindo força
a incondicional confiança
na capacidade cúbica
da infinitude de amar.
3. O Desejo de Viver a Intenção
utópica e provável
à espera do sorriso surgir
entre as artérias e ventrículos.
mariana candeia. serra da lagoa dourada. minas gerais.brasil. 25/01/09
10 janeiro 2009
I WOULD LOVE TO REPEAT - (poema)
24 dezembro 2008
RECICLAGEM ECO-PSICOLÓGICA - (artigo)
A evolução humana nos dotou de sentimentos positivos e negativos. Mas, o que determina a escolha de cada um deles, em determinados momentos e situações de nossa vida? O que permite e o que impede estas emoções?
Certo dia estava escutando aquela música cantada pelo Milton Nascimento: “Maria, Maria” e meu pensamento parou naquela frase que fala: “ de uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aquenta”. Fiquei pensando em como nossa sociedade tem se comportado diante das angústias e fracassos da nossa atual civilização e, em como as pessoas têm reagido aos infortúnios, aos obstáculos e desafios de nossa cultura pós-moderna.
Infelizmente, passo a concordar que existe realmente uma categoria de respostas, não somente pessoais, mas, sobretudo, coletiva. E nesta categoria as pessoas estão vivenciando e interagindo com o universo, com os outros e consigo mesmo, através de uma “camuflagem” de valores essenciais para a vida e ainda persistindo no exercício da dominação.
Fico inquieta quando vejo reportagens e bibliografias surgindo desenfreadamente aos quatro cantos sobre: “como alcançar a felicidade”. Teorias e mais teorias, publicações como que receitas de bolo, algumas até bem interessantes trazendo exemplos de ícones importantes na história como Buda, Gandhi, Jesus Cristo, Madre Tereza, Dalai Lama. Acredito que estas pessoas iluminadas realmente servem de motivação e nos trazem estímulo fundamental, mas, sem dúvida alguma, não acredito que um sentimento tão visceral e essencial para a vida, como a felicidade, venha através de soluções rápidas. Este sentimento maior vem mais prontamente do exercício das forças de cada um, do exercício das virtudes de cada um, da forma mais autêntica do ser humano se expressar.
Eu poderia estudar mais a fundo esta afirmação e trazê-la com propriedade científica, mas, neste momento estou aqui com a minha sensação, minha vivência, que é ao mesmo tempo meu motor e minha engrenagem; meu ouvido e minha voz. Então, tudo me parece que a psicologia do século XX, realmente deixou uma marca forte na civilização. Uma psicologia com foco nas doenças, nos transtornos, desvios e distúrbios. Não somente ela, mas todo o pensamento cartesiano difundido pós revolução industrial e que nos domina há mais de 400 anos.
A criação da ciência da doença mental parece ter dominado em demasia os modelos de pensamento, sentimentos e de ação. As pessoas estão por todas as partes colocando rótulos, medindo, avaliando e diagnosticando seus próprios atos e o que é ainda pior, os dos outros.
Há uns meses atrás, um evento me ocorreu e senti muita tristeza, estava realmente infeliz e frustrada. Quando tenho sentimentos assim, que classifico como negativos (não porque são ruins, mas por me colocarem em baixa motivação), vivo o que preciso viver com aquela experiência, mas, logo me sinto desconfortável, não suporto conviver com aquela inconveniência por muito tempo. Penso que deixar um sentimento de angústia e tristeza assentar dentro de mim não é algo justo comigo mesma. Faz parte dos ciclos da vida, do nascer e morrer do qual faço parte. Mas, honestamente, não faz parte de minha essência.
Nós realmente precisamos destes “terremotos” e “tempestades”. E eu precisava daquilo. São estas situações que nos trazem, muitas vezes, a oportunidade de “abrir a cortina”, em outras palavras, enxergar o que você nunca conseguiu focar. Estas situações, também acabam se transformando no botão de “start” para acionar dentro de nós, mais uma vez, a confiança e o entusiasmo para a vida. Além de serem os melhores momentos para demonstração de nossas forças.
Em se tratando de mudar alguma coisa, eu percebo que o exercício da vontade, se torna muito mais importante do que tentar reorganizar fatores externos. Ultimamente eu tenho pensado que podemos dar um “destino” a tudo que produzimos. Acho que a gente pode começar a trabalhar ecologicamente dentro de nós: usar adequadamente o que for útil; dar um encaminhamento ao que for excesso e, reciclar os lixos que produzimos em nós mesmos.
Inicialmente, devemos considerar que nós produzimos muito material dentro de nós, diariamente e ao longo de nossa vida (sem falar naquilo que nós já carregamos porque alguém nos colocou em determinado momento). Imagine a quantidade de sensações, pensamentos, sentimentos, comportamentos, idéias, conceitos, pelos quais você passa ao longo de 24 horas. Muitos deles são voluntários, outros involuntários, alguns espontâneos, outros conscientes, outros inconscientes; positivos ou negativos. De uma forma ou de outra, tudo o que você vivencia faz parte de seu processo. E, quer queira ou não, você terá que lidar com isto.
Uma primeira atitude é a tomada de consciência do que você está produzindo. Que tipo de idéias, julgamentos, sentimentos? O que você vem semeando ou nutrindo? Você deve ter clareza com quais cores você está escolhendo pintar o seu universo. Como você está se conectando com os outros, com o mundo e com seu interior?
Para a Ecopsicologia (abordagem que cada dia mais vem tomando corpo e força no Brasil), assim como para outras abordagens da Psicologia, a infância é um estágio crucial no desenvolvimento da vida. O cerne da questão é que a criança, por sua natureza essencial traz uma relação animísta com o mundo natural, ela reconhece o ser, consegue ter uma relação em um nível íntimo, pois seu inconsciente ecológico é regenerado quando nasce. E, através de sua interação com o meio, com a cultura que a cerca, vai havendo uma modelação nesta relação. Esta conexão primária vai sendo desqualificada por uma série de posturas e sentimentos que o “normal” da cultura exige.
Para a Ecopsicologia (abordagem que cada dia mais vem tomando corpo e força no Brasil), assim como para outras abordagens da Psicologia, a infância é um estágio crucial no desenvolvimento da vida. O cerne da questão é que a criança, por sua natureza essencial traz uma relação animísta com o mundo natural, ela reconhece o ser, consegue ter uma relação em um nível íntimo, pois seu inconsciente ecológico é regenerado quando nasce. E, através de sua interação com o meio, com a cultura que a cerca, vai havendo uma modelação nesta relação. Esta conexão primária vai sendo desqualificada por uma série de posturas e sentimentos que o “normal” da cultura exige.
Eu realmente tenho intensas lembranças de infância em contato profundo com a Natureza, vivências que foram extremamente significativas na formação de minha personalidade. Cada um de nós viveu algo assim, nem precisamos fazer tanto esforço para lembramos de algum momento marcante com a vida natural na nossa infância (seja com animais, plantas, mar, rios, florestas, montanhas, etc).
E também observo que depois desta fase perdi muito desta conexão, vindo somente a me reconectar quando descobri a escalada e montanhismo, na fase adulta. Acho que sou capaz de entender razões pelas quais algumas pessoas sentem-se impotentes perante a vida e, porque algumas pessoas desistem no menor sinal de dificuldade.
Eu acredito que pessoas assim perderam esta conexão primordial, ou melhor, ainda não resgataram-na. Ainda não são capazes de reconhecer as relações e os sistemas dos quais fazem parte; ainda não enxergam vida por toda parte; ainda não deixaram que este sentimento de pertencimento crescesse dentro de si.
O mundo está tão desumano, a obsessão pelo poder regendo o dia-a-dia das pessoas, a compulsividade pelo consumo, a violência desenfreada, os enormes problemas sociais que vão aparecendo, a dominação da natureza, o crescimento sem limites, isto é realmente assustador e assola muita gente. Mas, o que ainda mais me assusta é ver as pessoas “embarcando” nesta. E o que é pior, nem sei se todos têm a consciência da escolha que estão fazendo, e as consequências desta para suas vidas.
Então, o passo seguinte, depois que você tiver a consciência do que está produzindo, é distinguir o que é importante ou não, o que lhe útil ou inútil. Você é o único responsável em fazer esta seleção. Muitos destes nossos materiais internos podem ser adequadamente utilizados e outros, no entanto, totalmente dispensáveis: não-recicláveis, não-reutilizáveis. Previamente distinguidos uns dos outros, este processo pode ser um gratificante caminho de vida, pois você se tornará gerenciador de seu próprio “lixo”, ajudando a minimizar a poluição que está ao seu redor. Percebendo que você nem precisa adquirir tanto, nem produzir tanto; e descobrindo que todos os recursos se encontram dentro de você mesmo.
OLHE PARA A BELEZA DE SUA VIDA
Eu realmente aconselharia a você fazer esta campanha ambiental dentro de você. Obviamente, estou falando de uma intervencão pessoal psicológica, não somente queremos ter sentimentos positivos, nós queremos ter direito a eles. E este é um modelo que não tenta remediar as deficiências, mas, intensificar as forças e virtudes.
São as nossas forças pessoais que produzem nosso bem-estar, mas toda emoção positiva desligada do exercício do caráter leva ao vazio, à inverdade e à depressão. Não se trata somente de ter uma vida boa, mas uma vida significativa. O exercício de suas forças vão de encontro à um propósito maior, aos seus valores e ao que você sente como adequado à você.
Eu quero uma vida que traga sentido para mim. Não quero viver uma vida onde na relação entre as pessoas existe espaço para o desrespeito e desconsideração; onde a relação com a natureza é destrutiva. Eu tenho tranquilidade em afirmar que estou aqui para viver da forma que acho que devo viver. Não estou aqui por conveniência social, para sobreviver ou somente ganhar meu dinheiro.
Por isto, escolho aderir a algo maior, não espero por nenhum milagre ou intervenção de Deuses (apesar de acreditar que existem fenômenos que desconhecemos e que atuam sobre nós), acredito muito na minha força pessoal, na minha capacidade de auto-regulação, na minha tendência atualizante, no exercício de minhas ações em congruência com meus valores. Acredito na minha ancestralidade e na herança da sabedoria ecológica que me foi dada.
Acredito no poder da Natureza, no poder das pessoas e do grupo. Este encontro profundo que podemos fazer com a Natureza exterior e a Natureza interior provoca mudanças significativas no nosso modo de pensar, sentir e agir. Existe um potencial enorme nesta relação, atingindo a esfera da saúde global: física, mental, espiritual.
Viver é a proposta de minha vida. E viver para mim significa: paixão, respeito e amor. Algumas vezes nós somos tocados por experiências negativas, eu também acredito que um NÃO pode ser uma excelente oportunidade. Uma oportunidade de você Vir, de Ir, de Ser e de Sentir.
Vida para mim é uma grande oportunidade. E por isto adoto uma postura receptiva com ela, me comportando não somente com abertura ao novo, mas com entusiasmo e interesse em aprender com a diversidade; exercitando minha humildade em reconhecer que sei muito pouco, fortalecendo minha força de vontade e perseverança; e assumindo a minha autenticidade e integridade. Esta é a minha reciclagem.
A Natureza tem me proporcionado lindos encontros, a mais real e honesta troca de energia. Somente tenho que agradecer à Vida.
Escalei em um dos lugares mais lindos da Patagônia Argentina; tive alucinações devido à hipotermia; vivi o mais estressante e arriscado momento outdoor de minha vida em um glaciar (realmente eu pensei que fosse morrer). Passei noites em claro deslumbrada com o incrível céu negro estrelado do deserto da Namibia; escalei em um dos lugares mais cênicos do continente africano; estive na junção dos oceanos Atlântico e Índico; acordei de madrugada para poder ver uma Cheeta e outros animais selvagens em seu habitat e comportamento naturais na África do Sul; vi uma leoa devorar uma girafa. Comi minhocas na África e gostei muito; acordei várias noites na barraca para tudo não ser devorado por formigas cortadeiras na Amazônia; por três dias presenciei a dança harmônica e pontual de milhares de andorinhas entrando como foguetes dentro de um cânyon magnífico ao por do sol, no cerrado do Mato Grosso; vi lindos pássaros, araras e tucanos diariamente durante um mês; dormi em cima de pedras sob a lua cheia e canto de sapos selvagens; mergulhei em muitas águas, cachoeiras, poços; nadei em uma gruta inundada de água azul translúcida na Chapada Diamantina; estive cara a cara com a triste devastação causada pelo fogo nas queimadas da Bahia; deixei ser levada na canoa pela correnteza de um rio. Tive a barraca inundada por uma chuva torrencial inesperada, presenciei a incrível dinâmica das águas, enchendo rios avassaladoramente; vi milhares de cigarras se transformando em plena chuva; revivi a sensação maravilhosa de descer ondas surfando.
Cada pessoa que conheci, tinha uma diferente beleza interior, alguma coisa que elas nem sempre tinham a consciência de que estavam revelando, mas, de alguma maneira, eu conseguia enxergar a partir da confiança e comunicação. Eu me sinto feliz de fato em ser capaz de ver estes momentos de revelação nas pessoas. E por elas terem adicionado valor e beleza no meu caminho.
Dia desses estava pensando nisto tudo e percebi que, aos pouquinhos, meu caminho está sendo criado a partir de profundas experiências pessoais. Amadurecendo e Desprendendo. Revisando e Integrando. E, aproveitando as chances que tenho para desenvolver minha habilidade de me livrar de meus medos e ajudar as pessoas a fazerem o mesmo por elas. Voltando à frase da música do Milton Nascimento: que elas deixem de “agüentar” a vida e passem a vivê-la plenamente.
Quando estive na África do Sul, eu vi de perto o quanto foi duro e longo o processo deles até a Libertação. Liberdade não é algo fácil de se conquistar. O povo africano descobriu que não necessariamente tinham que lutar, mas acima de tudo, não podiam deixar de agir ou simplesmente cruzar os braços. Eles puderam me acrescentar esta lição.
FELIZ 2009!!!
Beijos!
Mariana (Mita)
10 dezembro 2008
I Saw The Blue Light Again - (poema)
Que túnel é aquele que eu entrei?
Eu pensei que estava acompanhada, mas, estava só.
Eu pensei que a atmosfera fosse cósmica, no entanto, era cármica.
Eu pensei que o amor viesse em cores.
Não é possível que eu tenha dormido todo este tempo...
O espelho me acordou.
Naquela manhã dos meus olhos inchados;
Naquela manhã da mão quente na barriga
Naquela manhã em que ela, novamente chegou...azul.
E que eu, ao invés de chorar,
sorri ao nascer.
-Mariana Candeia, Rio, 06/11/08 -
14 maio 2008
FOMENTO - (poema)
trabalha o universo
eu não aquieto
não.
queria ir a toda velocidade
queria ir logo
quero sair
ah... energia incessante
eu penso que vou cair
mas, eu suporto, e
ultrapasso
coloco os dois pés no chão
sinto a base
renovo
ja me chamaram de guerreira
de joana d'arc
de índia velha
olho no reflexo e a imagem ainda não chegou
só o espírito
a alma pela metade
ainda a nascer
difícil é matar
fazer morrer
deixar morrer
para poder
deixar viver.
Mita - Rio de Janeiro- 14 de maio - 2008
eu não aquieto
não.
queria ir a toda velocidade
queria ir logo
quero sair
ah... energia incessante
eu penso que vou cair
mas, eu suporto, e
ultrapasso
coloco os dois pés no chão
sinto a base
renovo
ja me chamaram de guerreira
de joana d'arc
de índia velha
olho no reflexo e a imagem ainda não chegou
só o espírito
a alma pela metade
ainda a nascer
difícil é matar
fazer morrer
deixar morrer
para poder
deixar viver.
Mita - Rio de Janeiro- 14 de maio - 2008
15 abril 2008
TRANS - PIRAÇÃO - (poema)

o tempo substancializa
o momento determina
a glândula elimina
o momento determina
a glândula elimina
e tudo que antecede vem como uma descarga
piração deveria vir do fogo,
ação do fogo.
mas, a piração vem da gente
do estado alterado que transcende o fogo
ação do fogo.
mas, a piração vem da gente
do estado alterado que transcende o fogo
não deforma
não queima
não retém
assim como a "loucura"
alastra
assim como o fogo
não queima
não retém
assim como a "loucura"
alastra
assim como o fogo
é trans
leva
atravessa para algum lugar
para fora
leva
atravessa para algum lugar
para fora
e tudo que sucede
vem como um alivio
-mariana candeia, são paulo, abril, 2008 -
14 março 2008
A Casa do Gigante - (poema)

Curiosidade, encanto
descobertas e sonhos
nos faziam entrar
Logo, fui percebendo que no chão, a dureza do gelo não era a mesma da alma.
Vendo que aquele já se desfazia e derramava,
O que se sentia era fragilidade.
Antagonicamente, com sua violência eólica, os corpos eram esbofetados pelos braços invisíveis, em todos os cômodos.
As paredes não puderam ser tocadas.
O teto.... o teto antes azul, se fechou para o sol.
Acolhedor e caloroso
Até que, com 03 berros de sua garganta, o gigante expulsou 06.
Quero, então, um convite para entrar!
Mariana Candeia - El Chalten , fevereiro 2008
13 novembro 2007
THE SUN IS COMING - (poema)
17 outubro 2007
CAIXINHA DE SURPRESA - (poema)
Aproximou-se...
De uma forma muito especial
Percebi mais uma vez sua singularidade
Momento único.
De encanto
Planando no vento, porém parado no ar.
Nos olhamos por alguns mágicos segundos
O suficiente
... e voou.
Que eu me lembre, esta foi a última vez que o vi.
Mas, não sei se foi a última surpresa da caixinha.
Não sei.
- mariana candeia - rio de janeiro- março 07
De uma forma muito especial
Percebi mais uma vez sua singularidade
Momento único.
De encanto
Planando no vento, porém parado no ar.
Nos olhamos por alguns mágicos segundos
O suficiente
... e voou.
Que eu me lembre, esta foi a última vez que o vi.
Mas, não sei se foi a última surpresa da caixinha.
Não sei.
- mariana candeia - rio de janeiro- março 07
VERANO EN PATAGONIA - (poema)
Y hoy, el sol brilla una vez más
¿ No ès el mismo sol de ayer?
Y hoy, este rio nos acompaña una vez más.
¿ Ès el mismo rio de ayer?
Vida
Por todos los lados
Vida
Algo así, como la transitoriedad,
Lo que somos
Lo que vivimos
Donde las cosas se dishacen, dirriten, desmoronan y
escurren como un rio
Fuerza
Por todos los lados
Fuerza
Trabajando silenciosamente em un
metamorfismo interior
Y lo que creía ser concavo,
ahora puede ser convexo
Continuamente,
La naturaleza cambia y va cambiandonos
A cada día sobre un nuevo sol.
- Mariana Candeia-
(Refugio Otto Meiling - Cerro Tronador- 07:30h, 14/01/07)
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