Quando a vida te chama

 2016 - Mount Dickey  - Ruth Gorge - Alaska (photo: Pedro Binfa)

De repente tudo escureceu e se instalou o mais completo silêncio. Por um instante, eu perdi a conexão com todo o universo ao meu redor. Pensei: “morri?”.
Em uma fração de segundos voltei, ou melhor, a neve que encobria meus óculos de sol saiu das lentes fazendo-me enxergar a mim mesma na beira de uma grande vazio. 
Àquele ponto, eu estava tomada pelo terror e confusão. Tentava entender o que tinha acontecido, ao mesmo tempo em que minha mente ferozmente tentava encontrar a solução para aquele caos. Eu pensava: “tenho que respirar, tenho que respirar… calma, calma..”
Quando olhei para o infinito buraco negro à um milímetro de meus pés, a ansiedade me possuiu e falei para o Pedro: “Me tira daqui! por favor, eu não consigo alcançar a outra parede!”. 
Pedro também, acredito, estava pasmo com todo o “turbillhão” que estávamos vivendo nos últimos vinte minutos. Embora parecesse extremamente calmo. Se ele tentasse me remover fora da “crevasse”(fenda no glaciar) pelo lado dele, eu iria despencar no vazio e a corda iria “cortar” aproximadamente 2 metros de teto de neve acima de mim me fazendo pendular até atingir a parede de gelo do outro lado da “crevasse”.
ARGHH! Respira! pensava e tentava sem sucesso juntar as partes desconectadas de mim mesma por conta da intensidade do que acabara de acontecer. 
Minutos antes de cair nessa “crevasse”. Estávamos escalando o “West Ridge” do Mount Dickey, no Ruth Gorge, Alaska. Pensávamos que o dia seria tranquilo, já que a via não é muito tecnicamente exigente. As condições, no entanto, não estavam tão excelentes quanto pensávamos. Vínhamos progredindo bem nos 1.500 metros de escalada, passamos a “ice fall”( blocos de gelo pendurados), e reverzavamos a guiada que fazíamos em simultâneo (sem parada). Paramos para um lanche no ombro do ridge antes do “headwall” final. 
Pedro seguiu na frente na parte final da escalada, entre nós 15 metros de corda esticada. Olhei para cima e falei: “Hey, espera. Vamos decidir qual linha vamos seguir?! ” Instintivamente eu quis parar e ver qual era a nossa melhor opção. Na esquerda tinha corniças gigantes, que bem caracteriza as escaladas do Alaska; acima de nós estava bom, mas tinha umas pedras perto do cume; e na direita era a linha da aresta, com escalada mista de rocha e neve. Decidimos ir na linha da direita. 
Eu e Pedro em frente ao "Eye Tooth" - Ruth Gorge - Alaska
Pedro começou a fazer seu caminho para a aresta quando escutamos um barulho de caída de pedra. Os dois na mesma hora gritam: “Pedra, pedra!”. Olhamos para cima e o que vemos é o começo de uma das experiências mais intensas e talvez a mais assustadora que já vivi nas montanhas.
Não tivemos tempo de nos mover, uma pedra se deslocou perto do cume, caiu na neve e causou uma avalanche bem acima de nossas cabeças. Olhamos um para o outro e Pedro me fala:“Mita, se auto-detenha o melhor que você puder!”. Eu não disse uma palavra. 
Olhei para cima e vi aquela massa gigantesca de neve vindo em velocidade e aumentando mais e mais e mais. Eu estava completamente fincada na montanha, "piolet" e crampons dentro da neve. Segurei um ar dentro dos pulmões logo antes de ser atingida. Não tinha idéia do que iria acontecer conosco, mas tinha muito medo de cair no precipício, já que estávamos cerca de 20 metros da aresta. Se um de nós fosse arrastado fora da aresta, teríamos pouca chance de vida. 
A força da avalanche me jogou para fora da parede muito rápido, e eu comecei a ir para baixo no meio daquela massa branca enorme. Eu fiquei sem controle, lutei para me virar de frente para a montanha outra vez, batendo meus braços e pernas contra a neve e voltei para a posição de auto-detenção. 
A avalanche continuava, e eu colocava toda a minha energia em tudo que eu tinha aprendido com excelência, eu tinha que fazer meu melhor, o mais perfeito possível e minha consciência corporal estava em cada detalhe do meu posicionamento. Mas, de repente, foi a vez da avalanche levar o Pedro e, então, eu não acreditei! Senti seu peso na minha cintura e, poucos segundos depois eu fui lançada para fora a segunda vez. 
Acho que nunca vou esquecer essa cena, muito menos a sensação que tomou posse de todo meu ser neste momento. Ver Pedro e eu encordados e sem controle, escorregando em direção à um precipício de 1.500 metros, mobilizou em mim uma força visceral. Tipo primitiva. De sobrevivência. Deu um nó no meu estômago, senti um fogo no meu centro e ouvi uma voz interna que dizia que eu tinha que parar a nossa queda à qualquer custo. Eu tentava, mas o volume de neve era tanto na mochila que não me permitia girar meu corpo para o lado. De repente, um grito junto com um impulso veio lá de dentro de mim, e, como um desses filmes super dramáticos, estilo “Limite Vertical”, eu entro em posição outra vez, até conseguir parar a minha queda e consequentemente, a de Pedro. Assim que eu parei, ele pôde se posicionar também, e então, ficamos lá esperando terminar. A neve ainda descia como uma cachoeira “véu de noiva”, mas, agora, podíamos manejar a corda. 
Olhamos um para o outro, e checamos como cada um estava: “Eu estou péssima, nervosa, quero descer”. Eu sugeri desescalar a parede, já que eu estava com a confiança esgotada. E, foi neste momento, alguns minutos depois de “heroicamente” termos salvado um a vida do outro, que eu caio em uma “crevasse” que estava escondida por causa dos detritos da avalanche.
O que é isso tudo!? E, por que estou compartilhando essa experiência aqui? 
Porque esta experiência é real. E ela fala da força da vida, que é algo que nós, diante das escolhas que fazemos e submersos em um sistema social muitas vezes predatório, nos distanciamos substancialmente do que realmente precioso na vida. 
Acredito que mais do que em qualquer época, estamos em uma momento onde as nossas capacidades e potencialidades devem estar fortes, desenvolvidas e alinhadas com o fluxo de energia que nos move e nos re-cria a cada instante. 
Claro, este é um exemplo extremo. Mas, falo com sinceridade, foi preciso viver a intensidade insana dessa experiência para que eu sentisse nas entranhas todo o poder e toda a debilidade que existe dentro de mim. Já estive muitas vezes de frente para minha vulnerabilidade, mas nunca desta forma.

esperamos 5 dias até o avião chegar para sair do glaciar, ainda bem que restava meu chocolate favorito! :P

Qualquer conversação real, verdadeira, envolve vulnerabilidade. E, tenho percebido que é importante que eu encontre as minhas próprias vulnerabilidades e crie um diálogo honesto dentro de mim mesma. A partir deste encontro com a vulnerabilidade que avançamos na maturidade e no entendimento de nosso caráter. Depois que saí dessa montanha, eu fiquei um tempo em estado de “choque” diante da proximidade que tive com a morte. 
Intencionalmente, parava e tentava refletir o que significou este impacto na minha vida. Eu fui ali, fui acolá, tive alguns insights e incríveis articulações mentais a respeito do assunto.
Mas, sabe o que? 
"Bull shit!" - Não importa. Como diz Ram Dass em "Polishing the Mirror": "Getting caught up in memories of the past or worrying about the future is a form of Self- imposed suffering. Start fresh. It is a new moment."

A lição mais valiosa dessa experiência, no entanto, é:
LIFE IS NOW! 

Meditando, pude voltar à “crevasse” outra vez. E, ao mentalizar aquela situação, o que eu pude ver se resume a terror, pânico, descontrole, e uma profunda desconexão. Ali, dentro da "crevasse", vi como se o gelo ao meu redor fossem espelhos e eles, refletiam o mais deprimente estado da condição humana: a falta de esperança e a escassez do amor próprio.  
A natureza me deu (outra vez), mais um imensurável presente da “morte” para então, encontrar a VIDA. A morte é indissociável da vida e vice-versa, isso é perceptível em infinitas metáforas que estão ao nosso redor a todo instante. Pura beleza. Siga atento, alegre e em paz. 

Gratidão... obrigada à meu grande amigo Pedro Binfa (Chile) que foi a pessoa certa, no lugar certo e na hora certa! :) A-ho!
Puha! ( Medicine Power).

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